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Consumo e religião: o paralelo que a ressonância não prova

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Capa do artigo sobre consumo e religião, com ondas e montanhas em roxo e verde da Anallytica

A comparação entre marca e religião se sustenta bem em três pontos: sistema de crenças, senso de comunidade e uso de símbolos e rituais. O que não se sustenta com a mesma força é a versão mais citada dela, a de que exames de ressonância provariam que marca e fé acendem as mesmas áreas do cérebro. O paralelo é sólido no comportamento e frágil na neuroimagem, e essa distinção muda o que você pode afirmar numa reunião.

O que Martin Lindstrom afirmou

Martin Lindstrom é pesquisador de neuromarketing e autor de A Lógica do Consumo e Brand Sense. Em Buyology, publicado em 2008, ele relata um estudo de três anos, orçado em sete milhões de dólares, com cerca de 2.000 voluntários submetidos a ressonância magnética funcional enquanto viam logotipos, anúncios e produtos.

A conclusão que viralizou foi esta: diante de marcas fortes, o cérebro dos fãs mostrava atividade nas mesmas regiões ativadas em voluntários religiosos diante de imagens de fé. A frase é boa. O problema aparece quando se pergunta onde o estudo foi publicado, porque a cobertura da imprensa na época descreve o trabalho, mas ele não passou por revisão por pares.

O paralelo que se sustenta: crença, comunidade, símbolo e ritual

Tire a ressonância da equação e a comparação continua de pé, por razões observáveis. Marcas oferecem um sistema de crenças, valores que o consumidor adota como próprios. Oferecem um senso de comunidade, no qual quem usa a mesma marca se reconhece. E operam com símbolos e rituais, do logotipo ao gesto repetido de consumo.

O caso mais direto é a Harley-Davidson. Quem participa dos encontros da marca forma, em vários aspectos, uma comunidade de crentes, unida por valores compartilhados, com eventos que funcionam como festivais e uma identidade visual que serve de insígnia. Ninguém precisa de escâner para ver isso acontecer num estacionamento.

O mecanismo aqui é o que a literatura chama de prova social: o comportamento do grupo funciona como atalho de decisão e como prova de identidade. É o mesmo motor do comportamento de manada, com o sinal invertido. Na manada, você segue para não ficar de fora. Na comunidade de marca, você segue porque aquilo diz quem você é.

Por que o ritual funciona, e o que a Corona tem a ver com isso

Rituais entregam três coisas ao mesmo tempo. Pertencimento, porque conectam a um grupo. Conforto, porque oferecem previsibilidade e sensação de controle num ambiente incerto. E memória, porque ficam associados a emoções positivas que depois puxam a repetição.

A rodela de limão na Corona é o exemplo mais bonito, porque começou como solução técnica. Garrafa transparente exposta à luz sofre um defeito conhecido como lightstruck, que altera o sabor. O limão mascarava o problema. Virou gesto, o gesto virou identidade, e hoje a marca vende praia e frescor com um ritual que nasceu de um controle de qualidade. Torcer, lamber e mergulhar o Oreo no leite, ou quebrar o KitKat na pausa, seguem a mesma lógica: a marca não vendeu só o produto, vendeu o momento em que ele acontece.

Ilustração isométrica de três recipientes iguais, cada um mais definido que o anterior, representando um gesto que se repete até virar ritual
O mesmo gesto, repetido, deixa de ser hábito e vira identidade.

Quem controla o ritual não precisa competir por preço. Está vendendo o momento, não o produto.

Rituais de consumo que você já viu funcionando:

  • Girar o biscoito, separar as duas metades e raspar o recheio antes de comer. A empresa não inventou o gesto, ela transformou o gesto em campanha.
  • Esperar a espuma assentar antes do primeiro gole, num copo específico que só serve para aquela bebida.
  • A fila na véspera do lançamento, que não encurta a espera e é justamente por isso que funciona como ritual.
  • O primeiro café da manhã sempre na mesma caneca, que resiste a lava-louças, mudança de casa e opinião alheia.

Repare no que esses quatro têm em comum. Nenhum melhora o produto. Todos aumentam o custo de trocar de marca, porque trocar passaria a exigir abandonar o gesto.

No nível cerebral, o que se pode dizer com segurança é mais modesto e ainda assim útil. O núcleo accumbens, parte do circuito de recompensa, responde à antecipação de algo desejado, e não apenas à sua obtenção. É por isso que a expectativa do ritual costuma pesar mais que o consumo em si. Vale registrar que esse mesmo circuito aparece em pesquisas sobre dependência química, o que explica um efeito perverso documentado nos avisos em maços de cigarro: em vez de reduzir o desejo, a imagem do produto pode funcionar como propaganda reversa.

O que uma ressonância magnética não pode dizer

Aqui está o ponto que quase nunca acompanha a citação de Lindstrom, e é o ponto que separa argumento de folclore.

Em 2011, Lindstrom publicou no New York Times um artigo afirmando que a atividade no córtex insular de voluntários ouvindo o som do próprio iPhone indicava que eles amavam o aparelho. O neurocientista Russell Poldrack redigiu uma carta ao jornal, co-assinada por 44 outros pesquisadores da área, apontando o erro: a ínsula é ativa em dezenas de contextos diferentes, de dor a nojo, de julgamento moral a percepção do próprio corpo.

O nome técnico do erro é inferência reversa. Observar que uma região acendeu não autoriza concluir qual estado mental a produziu, porque não existe correspondência de um para um entre região e função. É uma variação da ilusão de causalidade, o viés de ler causa onde há apenas coincidência de padrão. Aplicado ao caso, mesmo que marca e imagem religiosa ativassem áreas parecidas, isso não provaria que a experiência é a mesma. Provaria que dois estímulos diferentes mobilizam um circuito que faz muitas coisas.

Ilustração isométrica de um campo de blocos baixos com um único bloco alto e iluminado, cercado por seis rótulos diferentes apontando para ele
A mesma região acesa admite muitas leituras. Escolher uma delas é inferência reversa.

Como seria um teste que valesse

Criticar é a parte fácil. Vale dizer o que faria a afirmação de Lindstrom virar evidência, porque isso deixa claro o tamanho da lacuna.

Primeiro, o estudo teria de ser publicado com o método descrito e passar por revisão por pares, o que o de Buyology nunca foi. Segundo, precisaria de um grupo de comparação decente, com estímulos neutros e com estímulos afetivos que não têm nada de religioso nem de marca, para separar o efeito específico do simples fato de a pessoa se importar com o que está vendo. Terceiro, teria de sair da inferência reversa, usando classificação treinada em outros participantes para prever o estado mental a partir do padrão de atividade, em vez de olhar uma região acesa e escolher um rótulo.

Nada disso é exótico. É o padrão normal de um artigo de neuroimagem. A distância entre esse padrão e uma alegação de livro de negócios é o que este texto está tentando medir.

Por que a versão com cérebro convence mais que a versão sem

Existe pesquisa sobre isso, e ela é desconfortável para quem trabalha com neurociência aplicada. Em 2008, Deena Weisberg e colegas publicaram no Journal of Cognitive Neuroscience o estudo The Seductive Allure of Neuroscience Explanations. O desenho é elegante. Eles apresentaram explicações boas e explicações logicamente falhas para fenômenos psicológicos, cada uma em duas versões, com e sem uma frase sobre o cérebro que era irrelevante para o argumento.

Adultos sem formação na área e estudantes acharam as explicações mais satisfatórias quando vinha a frase sobre o cérebro, inclusive quando a explicação era ruim. Especialistas não se deixaram influenciar. Ou seja, mencionar uma estrutura cerebral funciona como selo de credibilidade para quem não tem repertório para auditar.

E aqui aplico o mesmo rigor ao argumento que estou defendendo: esse achado também foi contestado. Uma reanálise publicada em Judgment and Decision Making sugere que parte do efeito vem de outros fatores do texto, não do conteúdo neurocientífico em si. A evidência aponta na direção que descrevi, mas o tamanho do efeito é menos claro do que a citação fácil sugere. Isso não enfraquece a lição prática, que é anterior a qualquer estudo: desconfie mais, não menos, quando um argumento vem embalado em nome de estrutura cerebral.

Durkheim explicou isso em 1912, sem escanear ninguém

A explicação mais robusta do paralelo entre consumo e religião é sociológica antes de ser neurológica, e tem mais de um século.

Em As Formas Elementares da Vida Religiosa, de 1912, Émile Durkheim propôs uma tese que ainda incomoda: religião não trata primariamente do sobrenatural, trata da sociedade. Toda coletividade divide o mundo entre o sagrado e o profano, sendo o profano a rotina e o sagrado aquilo que se destaca dela. E o que produz o sagrado é o encontro. Durkheim chamou de efervescência coletiva a energia que emerge quando o grupo se reúne em ritual, energia que depois se projeta sobre objetos e símbolos, tornando-os sagrados.

Leia a descrição de um encontro da Harley-Davidson e você está lendo efervescência coletiva. O objeto não é sagrado por atributo próprio, e nenhuma propriedade da moto explica a devoção. Ele é sagrado porque um grupo se reuniu em volta dele. Isso explica o fenômeno melhor que qualquer imagem de ressonância, e explica também por que comunidade de marca não se constrói com anúncio: se constrói com encontro.

Não estou dizendo que a sociologia antecipou a neurociência. São perguntas diferentes. Durkheim quis saber que função social a religião cumpre; a neuroimagem quer saber que circuitos se ativam. A questão é que, para decidir onde investir, a pergunta de Durkheim rende mais.

Ilustração isométrica de um objeto luminoso sobre um pedestal, cercado por um círculo de figuras voltadas para ele
Na efervescência coletiva, o objeto não é sagrado por atributo próprio, e sim pelo grupo reunido em volta.

Perguntas frequentes

Marcas ativam as mesmas áreas do cérebro que a religião?

Existe essa afirmação, atribuída ao estudo relatado em Buyology, mas ela não passou por revisão por pares e o raciocínio que a sustenta é o de inferência reversa, considerado inválido. Sobreposição de área ativada não é equivalência de experiência. O paralelo entre consumo e religião se sustenta melhor no comportamento observável que na neuroimagem.

O que é inferência reversa em neurociência?

É concluir qual estado mental alguém está tendo a partir da região cerebral que aparece ativa. O erro está em supor correspondência de um para um entre região e função, quando a mesma área participa de muitos processos diferentes. A ínsula, por exemplo, aparece em estudos de dor, nojo, julgamento moral e percepção corporal.

Como criar um ritual de marca sem manipular o consumidor?

A linha é a transparência do mecanismo e a liberdade de saída. Ritual que organiza um momento de consumo e permanece verdadeiro sobre o que entrega é arquitetura de experiência. Escassez fabricada, contagem regressiva falsa e pressão de pertencimento usam o mesmo circuito contra a pessoa. O teste prático é direto. Se o consumidor entender exatamente como o gesto foi desenhado e ainda quiser repeti-lo, é ritual. Essa fronteira entre construir significado e explorar mecanismo é o assunto do manifesto da Anallytica, e não é acessório ao trabalho.

Referências